| Criando um teclado Dvorak |
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E chegamos agora à parte difícil da nossa tarefa: a partir daqui não há regras simples e fixas, que se aplicadas vão resultar na melhor adaptação possível do teclado. Foram necessários várias tentativas e comparações, analisando com cuidado a lista de toques 2 a 2, a lista de palavras mais usadas, a distribuição de frequência entre os dedos, tudo de uma vez só. Talvez seja possível melhorar ainda mais, mas esse foi o meu melhor:
E a distribuição de frequência:
Começo a explicar pelo mais simples de ser explicado: a inversão do /(?) com o - foi sugestão do Nando Florestan, que, acertadamente, disse que no dia-a-dia usamos muito mais o ponto de interragação, ao escrever mensagens de correio eletrônico ou nos bate-papos dos mensageiros instantâneos, do que o hífen. Também explica-se a presença forte do hífen nos textos analisados pelo uso grande de ênclises e mesóclises, coisas que substutuímos normalmente por construções mais simples, especialmente as mesóclises. Quanto ao acentos, a inversão se explica pelo fato de que o acento agudo ocorre sobre todas as vogais, enquanto o til só ocorre sobre A ou O. Mantendo o acento agudo na linha central, é possível escrever 2.548 palavras diferentes sem usar nem um toque nas outras linhas. Com o til, esse número cai para 2.341. Um outro motivo foi também a posição do N, achei o movimento para digitar N e depois o til mais confortável com o til na linha superior, do que com o til logo ao lado do N na linha central. Na linha superior, na posição em que ficou o til, a tendência é movimentar menos o pulso, fazer um movimento mais largo, do que torcer a mão para alcançar a tecla onde ficou o acento agudo. A posição trocada do E com o O foi para não deixar o dedo indicador trabalhar "demais", e também por que o digrama UE é bastante frequente, e digitar as duas letras com o mesmo dedo, ainda mais com um movimento de dentro para fora, me pareceu desconfortável. O mais correto, nesse caso, teria sido colocar o U no lugar do I, mas isso iria piorar a distribuição da digitação entre os dedos, que é uma regra que eu considerei superior à regra do movimento de fora para dentro. Os casos das consoantes são os seguintes: N foi para o mindinho porque, na lista de toques 2 a 2, as posições mais frequente de digrama de N com outra consoante são NT e ND, logo o N foi para a direita. O D então eu optei por colocar sob responsabilidade do indicador, pois o digrama mais frequente em português é DE, assim o DE, DA, DO ficaram bem fáceis de digitar. O R, por fim, veio ficar na tecla vaga que sobrou desse rearranjo. Quanto à linha superior, eu notei que os dedos que a alcançam com o menor esforço são o dedo médio e o anular. Pode ser que eu tenha achado isso porque sou homem, vi um documentário outro dia que dizia que os homens têm o dedo anular maior ou do mesmo tamanho que o indicador, por causa da exposição à testosterona ainda no útero. Mas as mulheres que testaram a disposição também acharam mais fácil alcançar a linha superior com o anular do que com o indicador. Assim, o C trocou de lugar com o L. Outra inversão foi a do Ç com o X: estava achando estranho esticar o dedo para alcançar o Ç na antiga posição do T, e troquei então com o X, a letra menos usada em português. Interessante também do ponto de vista dos toques 2 a 2 é que o X é mais frequente na combinação EX, logo o X ali contribuiu para a diminuição dos movimentos de dentro para fora. O Ç onde ficou teve pouca influência sobre esse quesito, já que ele ocorre principalmente antes do til. Voltando à mão direita, passei a observar a digitação da linha inferior. A posição do V achei que não estava boa, as duas melhoras posições na linha inferior são onde estavam o Q e o H. O Q merecia ficar onde estava, por conta da frequencia do QUE, numa posição confortável de alcançar. O V então veio para o lugar do H, e H no lugar do V. Depois de um tempo, achei que o F não estava num lugar tão bom, o pulso se torce para alcançar a posição onde ele estava. Tinha que trazer inverter sua posição com outra letra, menos frequente. Observando a lista dos toques 2 a 2, comparando o uso das consoantes menos usadas, verifiquei que os digramas mais frequentes com a letra Z eram EZ e ZE, provavelmente por causa da conjugação do verbo FAZER. E que inverter o Z com o F não era bom negócio, pois o F é mais usado nos digramas FI, FA e FE. Colocar o F no lugar do Z teria aumentado a frequência de toques de dentro para fora, mais do que deixar o Z onde estava. O G também não ficou bom, testei a combinação H, F, Z, com o G onde estava o Z. Parti então para o H. O H é usado mais frequentemente dos digramas LH, CH, NH, logo, forte candidato a ir para a mão esquerda. Resolvi então, já que o H é bastante frequente, colocá-lo na linha superior da mão esquerda, desci o B no lugar do Z, e puxei o G e o F para a esquerda. Vejamos agora a análise da digitação. Essa análise, na verdade, foi feita várias vezes durante o processo descrito mais acima, aqui vai somente a análise da versão final da disposição:
Observando essas tabelas, pode-se confirmar o benefício da troca de mãos entre o H e o Z: o uso da mesma mão para 2 toques seguidos caiu praticamente 3%, e os saltos de linhas, que eram culpa principalmente do CH e do LH, particamente desapareceram; também o benefício da inversão do E com o O: menos 19% de toques com o mesmo dedo. É isso, fica aqui o meio passo-a-passo, meio história, de como adaptar os princípios do teclado Dvorak a outras línguas. Até que, com o português, não foi tão difícil. Língua mais consonantais podem ter mais dificuldade em fazer a adaptação, eu imagino. Mas não é impossível não chegar a um resultado melhor adaptado do que a disposição QWERTY. |
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